ESCORPIÃO - CAPÍTULO 1





Certamente, o mundo já conheceu muitos heróis e vilões que tiveram seus nomes marcados na história por suas bravuras e feitos, mas de todos jamais houve alguém que se comparasse a ele. Muitos o chamaram de assassino, outros o aclamaram como salvador, mas o fato é que ele sempre esteve muito além de qualquer definição ou ideal. Sua vida era liberdade, seu coração era o povo e seu espírito se estendia entre os clarões da compaixão e a escuridão de seu sofrimento.

Tudo começa há muitos anos em uma praça no subúrbio de Belo Horizonte, quando em uma manhã ensolarada o tinir do berimbau e som dos atabaques davam ritmo aos chutes e golpes dos capoeiras do mestre Quero-quero.
Jorge, um astuto capoeira que entre os seus era conhecido como Escorpião, gingava com o mestre demonstrando com tamanha destreza suas esquivas e armadas. Enquanto isso os outros os rodeavam batendo palmas e cantando a canção de um jovem negro filho de rei, que fora roubado de sua terra para ser trazido para o Brasil como escravo.
Entre os observadores e cantores daquela roda se encontrava um pequeno menino chamado Tomé, que apreciava com imensa admiração a habilidade e alegria com que seu pai gingava e executava os movimentos herdados de seus ancestrais.
Jorge havia nascido na Bahia e conhecido lá a realidade cruel de ser pobre e negro onde a ignorância e o egoísmo da humanidade proliferam como um vírus mortal. Porém, a despeito da fome e da miséria, o amor surgia entre os olhares juvenis como numa outra terra qualquer. Foi assim que Jorge conheceu Rosa e descobriu no beijo da morena o gosto de viver, mas as durezas da vida a cada dia os exprimiam mais, assim após se casarem eles se mudaram para Belo Horizonte, na esperança de que lá encontrassem uma vida melhor.
Naquele dia, enquanto gingava com o Sol a brilhar em seu rosto, Jorge relembrava seus tempos de mocidade, quando era livre para pisar descalço no chão e correr como uma raposa pelas areias da praia. Naquele momento, a gingar feito um guerreiro ao som da capoeira, ele não era mais Jorge, ele era Escorpião.
Contudo, quando o Sol atingiu o meio do céu nove policiais montados em cavalos se aproximaram da roda de capoeira. Naquele mesmo instante, os capoeiras pararam de jogar e ficaram estáticos esperando alguma ação dos intrusos, os policiais por outro lado ficaram os rodeando a girar seus cassetetes, enquanto o capitão que possuía a patente mais algo se adentrou na roda.


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